domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Cristo abandonado

Não creio em imagens ou estátuas e me perdoem os excessivamente religiosos. Não sou ateu. Apresso-me para dizer antes que alguém me condene pela prática de heresia. Mas minha concepção de Deus é semelhante a que tem Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando pessoa. “Deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar, e então acredito nele.
Acredito mais em Deus do que nos homens que pensam que são deuses. Idolatro somente a natureza que foi construída pelo talento de um homem só e doada a todos sem distinção
de cor nem classe social. Pelo feito Deus não cobra nada senão a sensibilidade dos homens diante da sua magnitude.
Deus não teria tempo para ficar no trono se fosse divulgar as perfeitas obras que fez sem desperdiçar tempo, sem explorar nem exigir submissão dos beneficiados. O sol, a lua, a água, as florestas, os pássaros, as montanhas, o azul do céu todas essas coisas estão ao alcance de plebeus e barões. Deus é justo. Mesmo aqueles que destroem a natureza têm o mesmo direito dos que primam pala sua harmonia.
É esta certeza da bondade de Deus que me leva a superar a dor que sinto provocada pelas grosserias dos homens.
Muitas vezes, entediado pela hipocrisia dos pseudo-deuses, subi ao monte, obra mais magnifica que deus deixou neste lugar, para sentir o afago das mãos divinas. O monte é um poema. Aquelas pedras não são inanimadas. Elas cantam e choram. As árvores declamam poemas de amor. O monte é o manifesto de paz de Deus para os homens que se atropelam na estrada da arrogância, disputando o direito de mando no seu semelhante.
O monte, atualmente em estado de degradação total, me atraía não por causa do Cristo de concreto e ferro; o monte me dava segurança não por causa das grades de proteção. O monte já era lindo mesmo antes dos festejos de final de ano. Deus já havia nos doado o monte atraente e perfeito. Nunca enxerguei no monte uma obra do homem. Os homens produzem por interesse de promoção. As obras feitas pelos homens, independente da forma, representam grades. Os homens, a todo instante, desejam usurpar o posto de Deus. Era o meu pensar em Deus que me dava segurança espiritual no monte.
Foi a grandeza do monte, obra divina, que mais encantou o pensador Rubem Alves quando visitou a nossa pequenina cidade em 2006. Lembro-me do escritor mineiro falando com empolgação daquela vista maravilhosa com a sensibilidade de um poeta. Mas o Rubem daquele dia choraria se viesse aqui hoje. O poeta tem a sensibilidade de sentir a dor das pedras enquanto os homens-pedra ignoram a dor dos homens. As pedras que, são pedras, sentem o descaso do majestoso monte.
O que mais chamava a atenção da gente que nos visitava está em completo abandono. O monte chora as feridas que lhe causaram nos últimos anos. Na extensão de toda a estrada, as marcas da destruição: desmatamento, queimadas, poluição. No topo, assinatura do vandalismo: grades postas ao chão, rabiscos, pedras arrancadas. O lugar de adoração virou um depósito de lixo. Pereiro assiste, friamente, a morte da poesia do monte..
Falo agora de um monte vencido. O monte se vence pelo descaso, pela indiferença. A dureza das pessoas superou a das pedras do monte, por isso não sentem o sofrimento do monte que agoniza.
Não tarda para muitos milhões serem liberados para a reconstrução do monte. É fácil para os homens, detentores de dinheiro e máquinas, construírem obras que impressionem, mas que terão sempre o destino do monte. O monte precisa de atenção, mas o homem é que precisa de reforma geral.
“Os podres poderes” deixaram o nosso monte em ruínas. As ambições e picuinhas dos deuses da terra deixaram o Cristo abandonado. Quem tem olhos para ver, vejam. Cristo abre os abraços em desespero para que os homens parem com esta política cega. Pela insistência de cobrar a sensibilidade dos homens, Cristo foi abandonado.

Joacir Rocha, 10/022012

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