Senhores,
Achei deprimente a situação da Câmara municipal de Pereiro nesta tarde de 19/08/2011. O desgaste por causa do irrisório aumento que oscilava entre 13 e 15 por cento no valor do salário bruto do professor chegou ao ápice. Por pouco não houve sangue derramado literalmente. Porém, muita gente saiu dali com o coração sangrando. Assistimos, ao vivo, à morte e ao sepultamento da educação de Pereiro, que, a bem da verdade, já era quase morta se comparada à educação de países que levam isso a sério. A reivindicação consciente dos professores sofreu um ataque violento do doutor Célio Aquino, quando desqualificou o vereador de cinco mandatos, Carlos Alberto de Negreiros, taxando-o de não saber interpretar um artigo de uma lei. É lamentável que alguns professores tenham vibrado com a ofensa. No mínimo, deveríamos fazer uma reflexão profunda sobre o teor semântico do discurso do nobre advogado. Se Carlos Alberto, que tem um vasto currículo ( Diretor da escola que formou a maioria absoluta dos professores que ora exigem um maior reconhecimento da profissão, cinco mandatos de vereador, Secretário de educação deste munícipio por quatro anos, assina, com certeza, mais de um periódico, portanto, atualizado. ) ainda é chamado de ignorante, qual seria a classificação de nós professores que somos sugados inteiramente dentro de sala de aula? Vocês que se regozijaram com a “vitória”, quem sabe até participaram do churrasco de comemoração juntamente com a comitiva do senhor prefeito, lembrem-se de que os vossos filhos serão educados por esses homens ignorantes. Isso mesmo. São os professores desqualificados que irão continuar atuando aqui para fazer essa bela educação. Os filhos do Doutor Célio, com certeza, não estudarão nesta lameira que virou a escola pública hoje em dia. Os filhos do doutor Célio não irão pegar numa enxada como o pai afirma ter pegado, embora não lhe tenha trazido nenhuma sensibilidade. Uma poupança gorda já os espera.
Da mesma forma, os filhos do senhor prefeito, em se tratando também de quererem estudar, podem escolher a melhor escola. Ou simplesmente podem se tornar administradores dos bens que o pai conseguiu com muito suor. E os filhos de vocês apoiadores dos que depreciam a educação pública, para onde irão?
Certamente assumirão o posto de muitos bajuladores sem escrúpulo que vemos transitando no meio do povo. Sem dúvida, a ignorância é o alimento principal da política do nosso país. É bem mais cômodo lidar com pessoas incapazes de fazer uma reflexão crítica sobre os fatos.
Eu esperava que o vereador Josué Neto, como um aspirante advogado, tivesse sido mais enfático na sua fala. Questões como o desprestígio da profissão de professor nos dias atuais deveriam ter sido levantadas. Nem mesmo o pior aluno que temos em sala diz que quer ser professor. Isso, julgo o ponto máximo do desestímulo. Como se explica uma profissão tão nobre, como dizem os demagogos, ser tão rejeitada? Apesar da lama da política, não são poucos os que querem usufruir desse posto. Mas ser professor, trabalhar honestamente e se organizar com 700 reais mensal é motivo de vergonha. É revoltante ver o nosso dinheiro público sendo gasto para pagar advogados para atuarem contra um insignificante aumento no salário dos professores. Neste momento eu gostaria de provocar aqueles e aquelas que já andaram com Paulo Freire debaixo do braço. Chegou a hora de fazer uma fogueira desses livros. Vocês já alcançaram o topo da hipocrisia. Conseguem ser indiferentes a uma causa coletiva sem que a consciência lhes provoque qualquer mal-estar. Vendo a força com que doutor Célio investiu, apoiado pela maioria dos vereadores presentes, contra o modesto grupo de professores, lembrei-me de uma fase sinistra da nossa história- A Guerra de Canudos. Na última fase dessa guerra um exército com canhões e fuzis esmagava, aos esturros, um remanescente de miseráveis comandados por Antônio Conselheiro. Não ocasião, cabeças foram arrancadas e levadas ao governo como justificativa da vitória. Vitória? O fato é que ninguém prova que a miséria acabou.
O general da guerra que perdemos desta vez manteve-se de fora, ouvindo os estrondos dos tiros disparados contra nós. Os algozes entregaram a cabeça da nossa educação para ser comemorada com festa. Desculpe pelos vexames que causamos. Pereiro agora está livre para crescer. A exigência de uma educação de qualidade era o entrave para este município ser reconhecido internacionalmente. Agora é só comemorar. Vocês conseguiram matar o dragão que tirava a paciência do gestor. O prêmio pode não demorar a achegar as vossas mãos. Vamos lá “meu povo marcado”
Professor analfabeto Joacir Rocha, 19/08/2011.