quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Uma aula diferente

Hoje, para fugir do tédio, tentei por em prática algumas das teorias que norteiam o ensino de língua portuguesa. A sala, pouco arejada e de iluminação comprometida, me impulsionou a tomar a decisão de aproveitar o espaço mais amplo da quadra de esporte, contígua à escola, para ministrar uma aula de português. O tema não era lá tão relevante. Eu tinha em mãos uma crônica de Olavo Bilac, cujo título era prostituição infantil.
Terminada a freqüência, meus discípulos foram se dirigindo à porta que dava acesso à sala improvisada que, ao contrário de outros dias, encontrava-se a cadeado. Esperei alguns instantes pela menina que tem a incumbência de realizar esse serviço, mas ela, obedecendo à ordem superior, não veio nos atender. Para a nossa surpresa, a própria DIRETORA da instituição foi quem apareceu, com toda a prepotência concentrada, para por fim nessa desordem. Diga-se de passagem, dar aula fora das quatro paredes fica para quem não tem responsabilidade profissional.
Ao chegar, a suprema diretora, ignorando o termo democracia, disse para o grupo estupefato que a minha aula não podia acontecer na quadra, uma vez que os alunos já haviam passado o primeiro horário neste ambiente. Eu aleguei que ia dar aula e não brincar. Sem argumento, a ilustre DIRETORA mencionou a estadia de um freezer nas limitações da quadra, que poderia sofrer violações pelo o meu grupo de meninos.
As duas justificativas dadas por ela me encheram de indignação. Nas entrelinhas, meu colega foi chamado de incompetente e eu, de irresponsável. Ao longo desses três anos de trabalho, eu não formei uma turma que possa preservar um bem da escola, o que é, no mínimo, deprimente.
A reflexão que essa amarga situação me leva a fazer é que é fácil cuidar do normal. A minha inigualável diretora teve o prazer de me fazer voltar da porta de uma aula diferente, mas não consegue conter os anjinhos que pulam a murada da escola rotineiramente. Se eu estivesse na condição de um professor de história, iria aproveitar tal episódio para dar uma aula sobre bode expiatório. Como sou professor de português, aproveito para presentear os meus digníssimos alunos com esta crônica, que, com toda a singularidade, registra um momento amargo que passamos juntos. Uma aula diferente.
Joacir Rocha,31/05/2010

domingo, 5 de setembro de 2010

Um salto rumo ao progresso

Há exatamente vinte anos a pequena Pereiro comemorava, com muita festa, o seu centenário.
Em minha memória guardo cenas reais do dia 30 de agosto de 1990. Na manhã daquele dia, meu saudoso pai convidou-me para fazer o percurso de Sítio Flores à sede, aproximadamente 9 km, a pé, pelas grotas, para participar das solenidades que ocorreriam em virtude do aniversário do município. O sacrifício devia-se mais a admiração ao gestor municipal do que as festividades em si. Suponho que o meu eterno herói compreendia pouco do que se discursava por ali. Todavia, um gesto, um aperto de mão dos ídolos já compensaria qualquer esforço.
Da minha parte, um suco com bolo no café do Chico Bento seria mais compensador do qualquer outra coisa. Naquele tempo, eu ainda não dominava os sentidos da palavra progresso – termo que não faltou nos discursos proferidos pelos homens influentes daquela época. De mudanças, também pouco eu compreendia porque minhas visitas à sede eram esporádicas. Alheio às mudanças culturais e físicas da cidade, eu me apegava ao bolo.
Cumprindo o ritual do lanche tão almejado por mim, meu pai me conduziu à praça da matriz onde uma multidão se encantava com a fonte luminosa. Até então a minha visão não havia registrado imagem tão bela. Foi sem dúvida um dos feitos mais marcantes da gestão Irineu. Até mesmo supostos adversários chegaram a externar encantamento e aprovação.
Apenas duas décadas se passaram, mas percebo que as novidades, as modernidades apresentadas na ocasião do centenário ficaram obsoletas e arcaicas. A praça inteira já foi modificada, e a encantadora fonte luminosa se resume em escombros que talvez aterrem algumas das várias construções feitas nas margens do açude público municipal. Os mentores da modernização e do progresso daquela época também foram colocados de lado e fazem atualmente uma inexpressiva oposição. Quando são citados por alguém é para assumirem a responsabilidade de algo que não funciona bem nos dias atuais.
Do muito que foi apresentado naquele dia, acho que deixei de ver o mais essencial. Lendo o livro “Pereiro: Serra do Santos Cosme e Damião”, de Adauto Odilon da Silva, descobri que foi na comemoração do centenário de sua cidade natal que o historiador Pereirense lançou “Filhos ilustres de Pereiro”. Se não é uma obra que venha revolucionar a história cearense, é no mínimo uma demonstração de amor à cultura e apreço pelos seus conterrâneos. Não há nenhuma lei que autorize qualquer modificação no conteúdo desta obra, mesmo que alguém chegue a discordar do ponto de vista do autor. O mais irrisório daquele evento é o que não sofreu alterações com a transição de poderes. Bendita seja a cultura que permanece intacta diante dos desafetos.
Ainda não havia me detido na leitura do pequeno grande livro, de publicação póstuma (2004) de seu Adauto. Na capa, uma imagem paradisíaca do Monte Cristo Rei, com uma roupagem verde sendo realçada pelos gigantescos blocos de pedras maciços. O Cristo de braços abertos deixa transparecer um ato de amor e proteção à cidade. Na contracapa, uma imagem da belíssima Praça da Matriz (parte superior) e outra de semiavenida Capitão Xavier, aparecendo lá nos fundos uma pequena parte de Açougue Público Municipal. Este já foi engolido pelas retroescavadeiras.
O livro é grande porque é a única fonte de pesquisa de que dispomos hoje sobre esta cidade poética. Para conseguir fazer todo esse apanhado, levando-se em conta os rudimentares instrumentos que poderiam servir para esse fim, o nosso ilustre historiador demonstrou muita persistência. Disso não há quem tenha o direito de discordar. De pequeno, eu destaco, além da desatenciosa revisão ortográfica e conteudística, o tom encomiástico ao gestor municipal da época. A bajulação é execrável partindo de uma pessoa comum, mormente, quando se parte de um intelectual do porte de seu Adauto. Se as pessoas mais esclarecidas continuam agradecendo as “generosidades” políticas, quando iremos pensar em um povo livre ideologicamente? Um intelectual tem a obrigação de manifestar um olhar crítico sobre o mundo a sua volta e não compactuar com o fortalecimento de uma política de favores.
Se um outro seu Adauto tivesse surgido no decorrer desses vinte anos, sem dúvida teríamos uma publicação bem mais volumosa sobre a terra abençoada pelos Santos Cosme e Damião. Muitas páginas do livro seriam ocupadas com nomes de obras e reformas que foram feitas nos últimos seis anos. É notório o crescimento horizontal e vertical dessa cidade. Quem visitou Pereiro há cinco anos deve comprovar uma evolução radical no cenário físico se voltar aqui hoje. Milhares de metros de calçamento, dezenas de quadras de esporte, pracinha por todos os lugares, construção do pólo de lazer, telecentro, estábulo público (feira de animais), bombeamento de água Sede - Lagoa Nova, frota de ônibus escolares, Escola Técnica, enfim uma infraestrutura que faz lembrar a meta dos 50 anos em 5 do fundador de Brasília. Em breve, certamente, teremos uma Pereiro gigante, e como gratidão o povo, em massa, deve sair às ruas, com bandeiras empunhadas, para dar vivas ao gestor inspirado por Deus para fazer a felicidade dessa gente tão necessitadas das generosidades políticas.
Eu ainda não me incluo no meio desse povo grato. A minha bandeira está confeccionada há muitos anos, mas não encontrei motivos reais para empunhá-la. Estou sentindo que está iminente esta ocasião. Não espero por grandes coisas para fazer isso. A adoção de uma política ambiental que venha preservar o nosso principal reservatório hídrico; o controle dos desmatamentos e queimadas feitos no pé e no topo do nosso monte já me deixam balançado. Começo a desenrolar a bandeira quando o professor do nosso município for visto como sendo mais importante do que as estruturas de concretos da tão propalada escola técnica. Ainda espero que os direitos à saúde sejam garantidos sem o necessário pagamento com voto. E a minha bandeira será definitivamente empunhada se a imprensa ora criada nesta cidade, vigorar independentemente do aval de quem exige submissão absoluta dos que dependem das migalhas ofertadas.
.Sem dúvida fazer funcionar uma imprensa numa cidade limitada culturalmente como a nossa é bem mais difícil do que edificar e pavimentar. Haja vista que esse era um projeto de juventude de seu Adauto. Ainda bem que isso não é pré-requisito para o progresso e pôde esperar quase um século. “Em nossa juventude idealizamos compor à mão um jornalzinho ao qual demos o título de O PINTASSILGO” (p.186). Lá do céu seu Adauto deve estar torcendo por essa primeira tiragem do Jornal Gazeta da Serra porque “o jornalismo com vocação, faz parte do progresso em todos os seus objetivos.
Da mesma forma que o meu pai me levou à festa do centenário, levarei o meu filho, vinte anos depois, para apreciar o progresso dessa cidade, embora sabendo que ele irá se manter indiferente. Mais sofisticado do que eu, sei que irá me pedir um sorvete da Nestlê. Mas espero que, em breve, ele possa escrever mostrando que é nesta imprensa que podemos apontar as raízes do progresso, e pode passar despercebida aos olhos de muita gente que tem os olhos embaçados pela poeira do cimento.

Joacir Rocha,agosto de 2010

Um banho de lua

Um banho de lua

É tempo em que as pessoas têm pouco
Tempo para contemplar a lua;
É tempo em que a poesia não passa
De uma linguagem “fria”.
Neste mundo em que se calcula tudo em real
Vejo como única realidade a poesia da lua.
A lua nos toca, a lua nos foca sem emitir fofoca.
A lua que nos olha com olhar confidencial.
Ela nos diz que é normal o anormal.
O monte é igual ao monte, mas tudo
Tudo está mudado.
Alta noite, e o farol com toda a potência
Ofertando-nos um banho gelado.
A você oferto um presente sem valor:
Um poema de gelo para aquecer
E manter viva a nossa sensibilidade.
Joacir, agosto de 2010