terça-feira, 31 de agosto de 2010

Discurso inútil

Discurso inútil
Tem se tornado uma constante nas minhas aulas o debate com os adolescentes sobre as fantasias trazidas por esse mundo mecanizado. Às vezes deixo de trabalhar concordância verbal e nominal e perco, por que não assumir, aulas inteiras, para mostrar que a vida é o maior dos bens.
Porém o que o jovem espera da escola não são os sermões chatos e recheados de ideias utópicas que vivo proferindo. Já cheguei a dizer que se tivesse um mercado para palavras perdidas eu iria juntar várias toneladas das que soltei por aí e vendê-las a preço de material reciclável. Tento mostrar que um celular, que uma moto, que um salário grande não são as coisas mais importantes do mundo e que o maior dos bens materiais não chega a ser maior do que uma poesia. Esse pensamento anacrônico tem me rendido um saldo negativo. Não são poucos os alunos que passam por mim e torcem o rosto de banda como que temessem ser infectados por um vírus com alto poder de destruição.
Outro dia uma aluna me disse que não passaria um dia sem o seu celular. É evidente que os pais comungam disso também. Não dar para viver sem compartilhar das gostosuras tecnológicas que invadem o nosso lar. Aliás, permitir o consumo desenfreado tem sido um reforço dos pais para conseguirem “educar” os herdeiros. O real valor dos presentes oferecidos é que talvez não seja analisado. Quanto perde um pai que permite o filho levar um celular para escola e ficar ligando para o colega da sala ao lado? Quanto perde um pai que presenteia um filho menor de idade com uma moto? Acredito que as perdas são incalculáveis, mas dizer NÃO é difícil nessa sociedade escrava do consumo.
Antes de terminar essa crônica o meu filho chega a até mim e me faz uma alerta que está na hora do pão com presunto. Ao mesmo tempo, o meu celular toca. É o meu amigo que liga me falando de um acidente de dois jovens na estrada que liga Pereiro a São Miguel. Abandono o lápis e o caderno e saio à rua para fazer duas obrigações. Coloquei-me no lugar do pai do filho que pedia pão e passei pela padaria e, em seguida, fui ao hospital temendo que a tragédia tivesse sido com alguns dos meus muitos filhos adotados pela profissão. O reconhecimento não foi possível. Dois corpos acéfalos estendidos e dezenas de curiosos fotografando a rosto da miséria. Duas vidas que param no meio do caminho. O que prossegue é o meu discurso inútil. O desapego aos bens materiais é o analgésico mais eficaz para combater a dor.
Joacir Rocha,29/08/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

o poema do nada

O poema do nada
Queria fazer um poema
Para lhe dizer nada de novo.
Antes de tudo você sabe
Que o nada não acrescenta nada.
Mas é que o meu coração nada no nada
O que me leva a dizer
Que o nada às vezes é tudo.
Se não fosse o nada que o meu
Coração insiste em dizer
Eu passaria a ver nada em tudo.
Não mudo o meu modo de dizer nada
Na falta do tudo o nada é tudo.

Joacir Rocha,24/08/2010