terça-feira, 25 de janeiro de 2011

GARIMPEIRO

Considere as pequenas frases que me dirige
Como uma pequena pedrinha de ouro,
Menor do que um grão de areia,
Encontrada por um minerador
Que removeu toneladas de cascalho.
Já sentindo a exaustão se apoderar
De todo o seu corpo suado,
Essa pedrinha quase sem valor comercial
Reanima o garimpeiro sem esperança,
Que lança novamente mão a seu instrumento
De escavação porque enxerga agora a sua frente
Toneladas desse produto tão procurado.
Você é o tesouro que procuro há tempo.
Às vezes me perco pelo caminho,
Que não tenho noção do quanto já percorri
Nem a certeza de que as minhas pernas
Suportarão terminar esse percurso,
Mas quando sou tomado pelo cansaço,
Você deixa desprender um pequeno grão
Que me enche de esperança de chegar a essa mina.
Então me preparo para criar a cerca de proteção
Ao meu tesouro para que nenhum grão seja de lá levado.
Prossigo firme na minha árdua tarefa de garimpeiro.
Há dias que penso em jogar no mar as ferramentas;
Outros dias mergulho no mar de esperança
Para tirar o enfado dessa luta ininterrupta.
O seu sorriso é a água que me banha e me deixa renovado
A ponto de não sentir os calos que se formam nas minhas mãos.

Joacir Rocha, 25/01/2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

COMO SE FAZ UM LEITOR FORA DAS ESTRATÉGIAS

Como se faz um leitor fora das estratégias

As escolas de hoje, em particular as públicas, não contam mais com professores, mas com estrategistas. Foi-se o tempo em que dominar um determinado conteúdo, planejar bem as aulas, ter bons procedimentos morais eram suficientes para se dar boas aulas. Atualmente tudo gira em torno da estratégia. Estratégias para os pais mandarem os filhos para a escola, estratégias para os alunos conduzirem o livro didático, estratégias para fazerem os exercícios de casa, estratégias para os alunos usarem o celular com racionalidade, estratégias para os alunos não caírem na prática do sexo precoce, estratégias para anular o professor, estratégias para o professor cumprir os duzentos dias letivos e a mais hilária das estratégias - que tanto tem me angustiado - ensinar o aluno a gostar de ler. Esta eu considero a estratégia do absurdo.
Para começar, os grandes leitores e escritores nasceram bem antes das estratégias, e a escola para muitos dos íntimos desse ainda enigmático mundo para milhões de brasileiros não representava mais do que um cumprimento forçado de formalidade. Graciliano Ramos, para mim um dos maiores espelhos da escrita no Brasil, relata, em mais de um dos seus fascinantes textos, as torturas que sofreu nos bancos escolares. A freqüência à instituição, hoje com a incumbência de resolver todas as mazelas criadas por essa sociedade capitalista e desumana, era menos por vontade dele do que pela obediência à figura paterna.
O nosso inimitável Machado de Assis também é mais um exemplo de genialidade feita fora da escola. Enquanto os filhos da elite estudavam, o menino mulato e gago vendia doces na porta desta instituição. Ao mestre da linguagem literária brasileira, o conhecimento básico do código escrito foi suficiente para a penetração no mundo do significado. Machado viveu em um tempo em que se matava o tempo com boas leituras. Decisivamente as condições históricas, sociais e econômicas da época lhe favoreceram o desenvolvimento de umas das artes mais belas - a escrita. Não acredito que o talento tenha nascido com ele assim como não acredito hoje que se faça um leitor pelo víéis do artificialismo. O ler e o escrever requerem experiências, prática, disciplina, voluntariedade, paciência, renúncia, persistência e amadurecimento. Sem esses atributos, seguimos na imbecil tarefa de “procurar agulha no palheiro” e caindo nas armadilhas das estratégias.
A escola que desenvolveu a estratégia para formar um Fernando Pessoa ninguém é capaz de apontar. Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo dentre tantos outros nomes da literatura são delícias criadas bem antes das estratégias e se sentem ofendidos, onde quer que se encontrem, com as aberrações que vêem a escola cometer todos os dias.
Patativa, o matuto intelectual de Assaré, é mais um exemplo de escritor formado sem estratégia. Foi apenas três meses o seu contato com a escola. A sua formação veio muito dos cordelistas de seu tempo. Na roça, desenvolvia simultaneamente a técnica de puxar a enxada com a técnica do verso. Porém, sem estratégia, conheceu Castro Alves, se deliciava bastante com os escritos do Pessoa e atingiu o ápice lendo Karl Marx. O complemento veio das experiências com o seu seco torrão. Mas nos tempos modernos inventou-se a criação de leitores e escritores do vazio. Alunos com dificuldades extremas de ler um texto simples concorrem frequentemente como escritores de crônicas e poesias, embora desconheçam cronistas e poetas que lhes respaldem. Tudo isso graças às milagrosas estratégias.
Não sei por que, mas não consigo me familiarizar com esse nome macabro. A conotação que se tem quando se fala em desenvolver estratégia para gostar de ler é a de que a leitura é algo indigerível. O livro funciona mais como instrumento de suplício nas escolas do que como algo que dê prazer, o que contraria o pensamento do tão conceituado Rubem Alves. Para este mineiro, a leitura deveria servir apenas para dar prazer. O mesmo escritor ainda diz que ler e escrever são formas de fazer amor. Neste sentido não são poucas as torturas causadas por essas estratégias malucas porque só o que vemos são amores forçados. Muitos já desceram o Machado atravessado de garganta abaixo sem tomar qualquer gosto. É que a obrigação vem antes do prazer. O natural perdeu a validade.
Gosto de ler, mas não acho que todos devam concordar com o meu gosto. Também não concordo com a idéia de que todos devem ser leitores. Não me sinto nem um pouco preparado para transferir o gosto do que já li até hoje para alguém. O gosto é muito particular. O amargo Graciliano Ramos é para mim um petisco e descobri isso depois de várias mordidinhas. A paixão aconteceu depois da identificação com o “menino mais velho”. Eu teria deixado de ler Machado se tivesse concordado com muitos leitores sobre o sensaborismo de Memórias póstumas de Brás Cubas. Todavia, desenvolvi o gosto de ouvir o defunto mais sincero. Deve haver dias em que a sinceridade será encontrada apenas nesse livro.
Outros pratos de que gosto bastante: José Lins do Rego, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Jorge Amado. No entanto, podem significar para muitos o que as azeitonas significam para mim. Se alguém fala que sente sabor em azeitonas, sinto náuseas. Acredito que nenhum especialista em gastronomia poderia ativar o meu apetite. A explicação para tamanha aversão é que as azeitonas não me acompanharam durante a minha fase de criança. Ao contrário da leitura que me acompanhou rotineiramente nos encontros de latada, nas debulhas de feijão, nas farinhadas. Na fase adulta, só ampliei e sistematizei alguns conhecimentos. Confesso que os meus influidores não se utilizaram de nenhuma estratégia. A leitura era desenvolvida com a naturalidade com que os pássaros cantam. Meu tio, que não sabia “ler”, conhecia de cor uma dezena de cordéis. E quanto eu devo aos meus contadores de história!
Enquanto a escola luta em vão para fazer valer as estratégias, eu lamento a ida de muitos dos bons professores que tive. Eles nunca foram homenageados, nunca ganharam medalhas, nunca construíram escolas, nunca se descobriram como professores, nunca receberam aplausos, não cobraram aumento de salário nem tiveram o tempo de suas aulas cronometrado. Simplesmente distribuíram saberes gratuitamente. Se forem invocados, poderão indicar o caminho que nenhuma estratégia nos levou a encontrar até hoje - o de como fazer um leitor.
Joacir
20/09/2010

COMEÇO DE CAMPANHA

Começo da campanha

A dor do preconceito é uma das dores mais dolorosas que existem. Porém a sua intensidade só é sentida por quem já passou por tal experiência ou desenvolveu um grau de sensibilidade agudo a ponto de sofrer com os infortúnios do outro. Partindo do principio de que só um percentual ínfimo da sociedade é portador de algum problema de ordem congênita e que o egoísmo é preponderante no nosso meio, podemos afirmar que essa dor monstruosa atinge apenas um pequeno número de homens. Dentre o qual estou incluso perfazendo os dois critérios.
Desde o dia em que comecei a me reconhecer como gente essa dor me acompanha e já que o seu poder destrutivo não foi suficiente para me eliminar, fizemos as pazes e convivemos harmoniosamente. No acordo, eu permiti que ela doesse em mim sem lhe fazer qualquer reclamação e em contrapartida ganhei o direito de desenvolver uma sensibilidade excessiva diante do que vejo, deixando transparecer um incontrolável desejo de ação.
A partir do que vivenciei, compreendo a tortura sofrida por várias crianças que poderiam ter a dor aliviada se houvesse o mínimo de compaixão dos que desenvolvem o sentimento de amor pelo povo a cada dois anos. Execro os que podem fazer algo pelos que efetivamente sofrem e, no entanto, se omitem. Saúde e educação nunca irão passar de paliativo neste país insensível e preconceituoso. O povo simples fica sempre a mercê da vontade dos que fecham os olhos para a miséria que não lhes rende o lucro imediato.
No início do segundo semestre deste ano de 2010 encontrei com uma amiga que é mãe de um filho que nasceu com fissura labiopalatal (nome científico), no popular, lábio leporino. Perguntei-lhe se já sabia ler. Ao que ela me respondeu que não. Fiquei surpreso com a resposta porque a criança dela é mais velha do que o meu de sete anos, que lê e escreve. Diante do meu espanto, a mãe, que espera por uma CAMPANHA SORRISO para corrigir parcialmente o defeito congênito do filho, resumiu as causas do retardamento da aprendizagem do garoto. Segundo ela o ambiente escolar está sendo uma tortura para o menino, que se sentia humilhado pelos colegas que não aceitam a sua diferença.
O depoimento da mãe, que tem uma vítima da desatenção dos órgãos públicos desta cidade sofrendo na escola, me encheu de emoção. Pedi-lhe que agisse rapidamente. O sucesso dessa cirurgia plástica só acontece se os procedimentos forem tomados até os seis meses de idade. No caso dela já chegava a oito anos. O prejuízo já estava acontecendo tanto de ordem física quanto psíquica. Espantei-lhe os fantasmas da cidade grande e prometi-lhe ajuda incondicional. Garanti-lhe que na capital existem muitos médicos de bom coração, que muitas vezes não esperam pela longanimidade dos órgãos públicos e praticam um ato de caridade aos pobres do interior. Percebi depois do meu discurso de encorajamento um ar de mudança no seu semblante. E me despedi com a palavra AÇÃO!
Chegando a casa, comecei a pensar numa maneira mais direta de ajudar aquela criança. A minha reserva garantia no máximo a viagem de ida e volta à capital, porém sou consciente de que serão necessárias várias viagens do começo ao final do processo do tratamento. Na verdade não é nada tão fácil! Isso eu posso garantir com toda propriedade. Pensei em levar o problema para um grupo de amigos e pedir a eles uma contribuição, mas temi comprometer os seus orçamentos. Por último pensei na Ação Social para que verificasse casos como esses no município inteiro e encaminhasse para tratamento, o que não devia custar tão caro. Recuei porque era ano de eleições e poderia soar como uma atitude político-partidária. Por não encontrar nenhuma solução para o problema, parei angustiado.
A minha angústia crescia à medida que eu ouvia os discursos infundados nos vários palanques montados nos mais longínquos recantos deste município. Muitos perdiam a voz de tanto gritar para fazer o povo compreender a atenção dada à saúde, à educação, à inclusão social. Se eu me fizesse ouvir gritaria bem alto um esticado É MENTIIIIIIIIIIIIIRA. A minha amiga continua em casa esperando uma campanha sorriso. Bastava o dinheiro gasto com bombas, retratos de candidatos que exibem sorrisos forçados e tantas outras coisas fúteis durante a campanha eleitoral para trazer o sorriso de muita gente que infelizmente é tratada como coisa desprezível.
Enquanto os candidatos batem a poeira da campanha, desinfetam as mãos e todo o corpo do cheiro ruim de povo, começo minha campanha sutil e despretensiosa. Nessa eleição os meus candidatos são os portadores de lábio leporino. Posteriormente nomearei outra chapa com outros candidatos que também merecem votos de atenção e respeito. Sem bomba, sem coerção, sem compra de votos e sem grito quero que os meus candidatos disparem nas pesquisas.
Ajude as mães carentes a encontrarem o sorriso de seus filhos. Digite a tecla da solidariedade e confirme na tecla justiça.
Joacir Rocha, 08/10/2010
Desprezo
Por que de maneira assim tão rude
Você, minha flor, me dá desprezo?
Tentando me livrar me sinto preso
A sair dessa prisão, vem, me ajude!

É do tempo o poder que as coisas mudem
Mas todo tempo pra mim não emudeça
E que esta pobre alma não mereça
O massacre que provém de sua atitude.

Sou um pobre sem bens e sem saúde
E mais frágil fico se passa e me ignora
A pulsar meu coração quer sair fora
A querer lhe contar tudo amiúde.

Foi-se embora a minha juventude
Quem antes só cantava hoje só chora
Os meus soluços é voz que te implora
Dê-me a vida, o vigor, gozo e saúde.

Joacir,04/12/2010