segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

COMEÇO DE CAMPANHA

Começo da campanha

A dor do preconceito é uma das dores mais dolorosas que existem. Porém a sua intensidade só é sentida por quem já passou por tal experiência ou desenvolveu um grau de sensibilidade agudo a ponto de sofrer com os infortúnios do outro. Partindo do principio de que só um percentual ínfimo da sociedade é portador de algum problema de ordem congênita e que o egoísmo é preponderante no nosso meio, podemos afirmar que essa dor monstruosa atinge apenas um pequeno número de homens. Dentre o qual estou incluso perfazendo os dois critérios.
Desde o dia em que comecei a me reconhecer como gente essa dor me acompanha e já que o seu poder destrutivo não foi suficiente para me eliminar, fizemos as pazes e convivemos harmoniosamente. No acordo, eu permiti que ela doesse em mim sem lhe fazer qualquer reclamação e em contrapartida ganhei o direito de desenvolver uma sensibilidade excessiva diante do que vejo, deixando transparecer um incontrolável desejo de ação.
A partir do que vivenciei, compreendo a tortura sofrida por várias crianças que poderiam ter a dor aliviada se houvesse o mínimo de compaixão dos que desenvolvem o sentimento de amor pelo povo a cada dois anos. Execro os que podem fazer algo pelos que efetivamente sofrem e, no entanto, se omitem. Saúde e educação nunca irão passar de paliativo neste país insensível e preconceituoso. O povo simples fica sempre a mercê da vontade dos que fecham os olhos para a miséria que não lhes rende o lucro imediato.
No início do segundo semestre deste ano de 2010 encontrei com uma amiga que é mãe de um filho que nasceu com fissura labiopalatal (nome científico), no popular, lábio leporino. Perguntei-lhe se já sabia ler. Ao que ela me respondeu que não. Fiquei surpreso com a resposta porque a criança dela é mais velha do que o meu de sete anos, que lê e escreve. Diante do meu espanto, a mãe, que espera por uma CAMPANHA SORRISO para corrigir parcialmente o defeito congênito do filho, resumiu as causas do retardamento da aprendizagem do garoto. Segundo ela o ambiente escolar está sendo uma tortura para o menino, que se sentia humilhado pelos colegas que não aceitam a sua diferença.
O depoimento da mãe, que tem uma vítima da desatenção dos órgãos públicos desta cidade sofrendo na escola, me encheu de emoção. Pedi-lhe que agisse rapidamente. O sucesso dessa cirurgia plástica só acontece se os procedimentos forem tomados até os seis meses de idade. No caso dela já chegava a oito anos. O prejuízo já estava acontecendo tanto de ordem física quanto psíquica. Espantei-lhe os fantasmas da cidade grande e prometi-lhe ajuda incondicional. Garanti-lhe que na capital existem muitos médicos de bom coração, que muitas vezes não esperam pela longanimidade dos órgãos públicos e praticam um ato de caridade aos pobres do interior. Percebi depois do meu discurso de encorajamento um ar de mudança no seu semblante. E me despedi com a palavra AÇÃO!
Chegando a casa, comecei a pensar numa maneira mais direta de ajudar aquela criança. A minha reserva garantia no máximo a viagem de ida e volta à capital, porém sou consciente de que serão necessárias várias viagens do começo ao final do processo do tratamento. Na verdade não é nada tão fácil! Isso eu posso garantir com toda propriedade. Pensei em levar o problema para um grupo de amigos e pedir a eles uma contribuição, mas temi comprometer os seus orçamentos. Por último pensei na Ação Social para que verificasse casos como esses no município inteiro e encaminhasse para tratamento, o que não devia custar tão caro. Recuei porque era ano de eleições e poderia soar como uma atitude político-partidária. Por não encontrar nenhuma solução para o problema, parei angustiado.
A minha angústia crescia à medida que eu ouvia os discursos infundados nos vários palanques montados nos mais longínquos recantos deste município. Muitos perdiam a voz de tanto gritar para fazer o povo compreender a atenção dada à saúde, à educação, à inclusão social. Se eu me fizesse ouvir gritaria bem alto um esticado É MENTIIIIIIIIIIIIIRA. A minha amiga continua em casa esperando uma campanha sorriso. Bastava o dinheiro gasto com bombas, retratos de candidatos que exibem sorrisos forçados e tantas outras coisas fúteis durante a campanha eleitoral para trazer o sorriso de muita gente que infelizmente é tratada como coisa desprezível.
Enquanto os candidatos batem a poeira da campanha, desinfetam as mãos e todo o corpo do cheiro ruim de povo, começo minha campanha sutil e despretensiosa. Nessa eleição os meus candidatos são os portadores de lábio leporino. Posteriormente nomearei outra chapa com outros candidatos que também merecem votos de atenção e respeito. Sem bomba, sem coerção, sem compra de votos e sem grito quero que os meus candidatos disparem nas pesquisas.
Ajude as mães carentes a encontrarem o sorriso de seus filhos. Digite a tecla da solidariedade e confirme na tecla justiça.
Joacir Rocha, 08/10/2010

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