Pistoleiros de ideias
Ouvi muito nas conversas de latadas histórias de pistoleiros. Eram homens temíveis que ganhavam o pão derramando o sangue de inocentes. Uma moita, uma cerca, um tronco de árvore sempre serviam para ocultar essas criaturas frias e assustadoras. Uma divergência fútil, como uma discussão por causa de demarcação de terrenos, por exemplo, era suficiente para colocar alguém na mira de uma arma. As centenas de cruzes que ainda persistem em algumas estradas desse sertão é um marco das muitas emboscadas que foram feitas por cabras eficientes na arte do gatilho.
Porém poucos tinham o privilégio de cruzar com um desses homens perigosos. A partir do momento que adotavam a profissão tornavam-se escorregadios. Usavam a noite para fazer as suas andanças sempre com muita cautela. Um balançar de galho, um chiar de folha, o vôo de uma coruja já era motivo para espanto. Quem sabe poderia ser a alma de uma das vítimas ou dos parentes dela querendo vingança. Como dizia minha avó “o homem que deve jamais dormirá sossegado”.
Apesar do medo que eu sentia dos pistoleiros, desejava vê um deles. Mas eles não podiam se apresentar em público. Só alguns felizardos conseguiam vê-los e, às vezes, garantiam apoio logístico. Deles, estive perto apenas quando li José Lins do Rêgo, Jorge Amado e Graciliano Ramos, e as descrições feitas por esses escritores são condizentes com as que ouvi quando menino. Mas aqui a aproximação já se dava sem susto.
Mas chegou o tempo em que os pistoleiros definitivamente deixaram de assustar. Os mais eficientes caminham lado a lado com as pessoas e as balas que são usadas por eles não produzem qualquer estalo. As vítimas desse tipo de crime não apresentam lesão externa. O tiro certeiro é no centro das idéias. Há um enterro literal destas. Muitos corpos de cabeças ocas transitam entre a gente e defendem ardentemente a figura do assassino que lhes roubou a vida. Essa nova forma de matar é tão sutil que, ao contrário das mortes convencionais, onde existe choro e velas, há louvores, jantares, queima de fogos e adorações ao carrasco. E não são poucos os que se oferecem para morrer. O preço de cada morte é proporcional a influência que a vítima exerce no meio social.
No tempo em que as latadas deixaram de existir e o bandido deixou de ser aquela pessoa temível e execrável para assumir o papel de benfeitor e protetor da gente humilde, vivo eu fugindo das emboscadas nas quais muitos dos meus companheiros de luta caíram. Já não é mais um sonho ver um pistoleiro. Agora sinto por esses monstros nojo e aversão. Matar é sempre uma atitude covarde; matar idéia é covardia sem limites porque uma boa idéia perpassa gerações e gerações.
Joacir, 04/01/2011
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