Boa noite a todos os presentes nesta aula da saudade.
Senhora diretora, colegas professores, colegas da secretaria, auxiliares, prezados alunos e demais pessoas que direta ou indiretamente fazem parte da comunidade escolar.
Foi com surpresa que estando eu no meio de uma aula no oitavo ano desta escola, recebi, dias atrás, de forma espalhafatosa, a visita inesperada de um grupo de alunos do nono ano que ora se despede das dependências da Maria das Graças Nogueira. Olhei com ar de reprovação, quando Clara, aluna que eu mais me debati durante esses três anos, cheia de sorriso, me lança o convite para ser patrono da sua turma.
Sem muito questionar, aceitei. Sou o patrono às avessas. Pouco ou quase nada de material tenho para oferecer ao grupo que democraticamente me escolheu. Habitualmente os escolhidos para tão honroso posto são pessoas que sequer sabem o nome de mais de uma pessoa da turma, mas que recompensam o lado afetivo com uma doação financeira. Orgulhoso, vi na atitude dos meus discípulos um reflexo positivo dos muitos discursos que proferi em sala. Vocês estão provando que são livres para agir com justiça e sensatez. Talvez os auxiliares da nossa escola merecessem mais do que eu essa homenagem, mas tudo bem.
Escolhi ser duro com vocês para com isso lhes preparar para superar os muitos obstáculos que ainda hão de enfrentar pela frente. O dicionário traz como primeiro significado da palavra patrono ( padrinho e protetor ). Talvez proteger e apadrinhar foram as coisas que tentei fazer ao longo desses três anos. É claro que tentei dar uma proteção com responsabilidade. A proteção que em casa dou ao meu filho. Faço por ele o que ele não pode; faço com ele o que eu não quero que outro faça. Aprendi a querer bem sem omissão e a proteger sem anular. Eu teria tido menos atrito com vocês se ao invés de ensinar o que vocês precisam tivesse falado o que vocês gostariam de ouvir. Mas prefiro adotar a coerência acreditando que as verdades que eu disse mais cedo ou mais tarde ecoarão em vossos ouvidos. Antes de ensinar qualquer conteúdo didático-pedagógico tentei fazer com quer vocês entendessem a verdadeira razão de se freqüentar uma unidade escolar e a importância da aquisição de uma boa educação. Sou tomado por forte sentimento de justiça e liberdade o que me faz viver em constantes choques com as pessoas que vivem ao meu redor. Porém muitos se chocariam como eu se tivessem coragem ou consciência de revelar a verdade. Assumo que sou intolerante com algumas coisas neste mundo, inclusive com aqueles que insistem em cultivar a ignorância sabendo dos seus efeitos catastróficos. Sei que não é fácil sair do plano concreto para o mundo das abstrações. Sem dúvida o conhecimento é muito rejeitado porque poucos têm a sensibilidade de focalizar a sua beleza. Assim como a ignorância também não é vista com seus horrores porque muitos não conseguem enxergar o seu rosto..É da ignorância que provém as maiores injustiças do mundo. Confesso que fui exigente ao extremo com vocês. Corrigi postura, modos de falar, focalizei muito a questão dos valores, fiz sermões intermináveis para puder preparar um ambiente de trabalho. Cheguei a ser odiado por causa disso e talvez muitos chegaram a me ver como mal. Lembro-me de que meu pai uma vez me puxou um dente que estava mole e praguejei-o por isso. Um dia quando adquiri consciência agradeci a ele por aquela atitude. A dor passou em segundos, mas o defeito poderia ter me acompanhado por toda minha vida. Arranquei muitos dentes moles de vocês, fui contra os chicletes, fui contras as atitudes não condizentes com uma boa aprendizagem. Espero que as dores tenham passado. Mas o sacrifício não foi em vão. Acredito que consegui fazer com que vocês me escutassem sem que fosse preciso impor medo. Conhecimento e acima de tudo polidez no trato com as pessoas são as coisas mais exigidas neste mundão que impera a competitividade. Tentei trabalhar isso. Fico feliz com o que dentro das minhas possibilidades, consegui lhes oferecer. Lembrem-se de que o maior sucesso que o homem pode alcançar é a liberdade e que esta não se atinge sem leitura. Demos os primeiros passos, mas é preciso que haja continuidade para que um dia possamos disputar corridas com os principais corredores. Neste momento, peço-lhes desculpas pelas faltas que cometi durante esse tempo, pelas palavras duras que proferi para torná-los brandos, pelos conselhos que nunca cansei de dar. Saio desta missão como um pai que vê um filho saindo de seus cuidados depois de atingir a maioridade. Um lado me culpa de não ter feito o máximo e das lágrimas que os fiz derramar ; o outro me consola de ter feito um pouco. Mais que este pouco que consegui oferecer possa servir de base para o muito que vocês podem e devem alcançar.
Joacir, 14/12/2010
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