segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

COMO SE FAZ UM LEITOR FORA DAS ESTRATÉGIAS

Como se faz um leitor fora das estratégias

As escolas de hoje, em particular as públicas, não contam mais com professores, mas com estrategistas. Foi-se o tempo em que dominar um determinado conteúdo, planejar bem as aulas, ter bons procedimentos morais eram suficientes para se dar boas aulas. Atualmente tudo gira em torno da estratégia. Estratégias para os pais mandarem os filhos para a escola, estratégias para os alunos conduzirem o livro didático, estratégias para fazerem os exercícios de casa, estratégias para os alunos usarem o celular com racionalidade, estratégias para os alunos não caírem na prática do sexo precoce, estratégias para anular o professor, estratégias para o professor cumprir os duzentos dias letivos e a mais hilária das estratégias - que tanto tem me angustiado - ensinar o aluno a gostar de ler. Esta eu considero a estratégia do absurdo.
Para começar, os grandes leitores e escritores nasceram bem antes das estratégias, e a escola para muitos dos íntimos desse ainda enigmático mundo para milhões de brasileiros não representava mais do que um cumprimento forçado de formalidade. Graciliano Ramos, para mim um dos maiores espelhos da escrita no Brasil, relata, em mais de um dos seus fascinantes textos, as torturas que sofreu nos bancos escolares. A freqüência à instituição, hoje com a incumbência de resolver todas as mazelas criadas por essa sociedade capitalista e desumana, era menos por vontade dele do que pela obediência à figura paterna.
O nosso inimitável Machado de Assis também é mais um exemplo de genialidade feita fora da escola. Enquanto os filhos da elite estudavam, o menino mulato e gago vendia doces na porta desta instituição. Ao mestre da linguagem literária brasileira, o conhecimento básico do código escrito foi suficiente para a penetração no mundo do significado. Machado viveu em um tempo em que se matava o tempo com boas leituras. Decisivamente as condições históricas, sociais e econômicas da época lhe favoreceram o desenvolvimento de umas das artes mais belas - a escrita. Não acredito que o talento tenha nascido com ele assim como não acredito hoje que se faça um leitor pelo víéis do artificialismo. O ler e o escrever requerem experiências, prática, disciplina, voluntariedade, paciência, renúncia, persistência e amadurecimento. Sem esses atributos, seguimos na imbecil tarefa de “procurar agulha no palheiro” e caindo nas armadilhas das estratégias.
A escola que desenvolveu a estratégia para formar um Fernando Pessoa ninguém é capaz de apontar. Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo dentre tantos outros nomes da literatura são delícias criadas bem antes das estratégias e se sentem ofendidos, onde quer que se encontrem, com as aberrações que vêem a escola cometer todos os dias.
Patativa, o matuto intelectual de Assaré, é mais um exemplo de escritor formado sem estratégia. Foi apenas três meses o seu contato com a escola. A sua formação veio muito dos cordelistas de seu tempo. Na roça, desenvolvia simultaneamente a técnica de puxar a enxada com a técnica do verso. Porém, sem estratégia, conheceu Castro Alves, se deliciava bastante com os escritos do Pessoa e atingiu o ápice lendo Karl Marx. O complemento veio das experiências com o seu seco torrão. Mas nos tempos modernos inventou-se a criação de leitores e escritores do vazio. Alunos com dificuldades extremas de ler um texto simples concorrem frequentemente como escritores de crônicas e poesias, embora desconheçam cronistas e poetas que lhes respaldem. Tudo isso graças às milagrosas estratégias.
Não sei por que, mas não consigo me familiarizar com esse nome macabro. A conotação que se tem quando se fala em desenvolver estratégia para gostar de ler é a de que a leitura é algo indigerível. O livro funciona mais como instrumento de suplício nas escolas do que como algo que dê prazer, o que contraria o pensamento do tão conceituado Rubem Alves. Para este mineiro, a leitura deveria servir apenas para dar prazer. O mesmo escritor ainda diz que ler e escrever são formas de fazer amor. Neste sentido não são poucas as torturas causadas por essas estratégias malucas porque só o que vemos são amores forçados. Muitos já desceram o Machado atravessado de garganta abaixo sem tomar qualquer gosto. É que a obrigação vem antes do prazer. O natural perdeu a validade.
Gosto de ler, mas não acho que todos devam concordar com o meu gosto. Também não concordo com a idéia de que todos devem ser leitores. Não me sinto nem um pouco preparado para transferir o gosto do que já li até hoje para alguém. O gosto é muito particular. O amargo Graciliano Ramos é para mim um petisco e descobri isso depois de várias mordidinhas. A paixão aconteceu depois da identificação com o “menino mais velho”. Eu teria deixado de ler Machado se tivesse concordado com muitos leitores sobre o sensaborismo de Memórias póstumas de Brás Cubas. Todavia, desenvolvi o gosto de ouvir o defunto mais sincero. Deve haver dias em que a sinceridade será encontrada apenas nesse livro.
Outros pratos de que gosto bastante: José Lins do Rego, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Jorge Amado. No entanto, podem significar para muitos o que as azeitonas significam para mim. Se alguém fala que sente sabor em azeitonas, sinto náuseas. Acredito que nenhum especialista em gastronomia poderia ativar o meu apetite. A explicação para tamanha aversão é que as azeitonas não me acompanharam durante a minha fase de criança. Ao contrário da leitura que me acompanhou rotineiramente nos encontros de latada, nas debulhas de feijão, nas farinhadas. Na fase adulta, só ampliei e sistematizei alguns conhecimentos. Confesso que os meus influidores não se utilizaram de nenhuma estratégia. A leitura era desenvolvida com a naturalidade com que os pássaros cantam. Meu tio, que não sabia “ler”, conhecia de cor uma dezena de cordéis. E quanto eu devo aos meus contadores de história!
Enquanto a escola luta em vão para fazer valer as estratégias, eu lamento a ida de muitos dos bons professores que tive. Eles nunca foram homenageados, nunca ganharam medalhas, nunca construíram escolas, nunca se descobriram como professores, nunca receberam aplausos, não cobraram aumento de salário nem tiveram o tempo de suas aulas cronometrado. Simplesmente distribuíram saberes gratuitamente. Se forem invocados, poderão indicar o caminho que nenhuma estratégia nos levou a encontrar até hoje - o de como fazer um leitor.
Joacir
20/09/2010

3 comentários:

  1. A cada dia me surpreendo mais ainda com esse pequeno notável. parabéns, quero entrar nessa roda de diálogo.

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  2. Perdão Joacir pela demora em visitar seu blog, mas somente agora consigui gozar de um computador em pleno funcionamento.
    Indo ao que interessa,como bem disse você no texto, atualmente a leitura ocupa uma posição exatamente oposta a de antigamente. Parece que a tecnologia tomou não só o lugar dos livros, mas assaltou a curiosidade das pessoas e as deixou a mercê de seus caprichos e monotonias. Também acredito que a nova era tecnológica transformou a maneira de se trabalhar a educação, já que os responsáveis pro essa área estão cada vez mais próximos de técnicas e táticas do que dos estudantes, que pro sua vez se distanciam mais da escola e ocupam esse espaço com as coisas modernas e pouco importantes. Talvez você seja a excessão nesse cenário.

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  3. joacir coração cinseramente não tenho palavras para expressar a experiência que adquiri com seus textos.
    quero te parabenizar por tudo que você faz, pois é um trabalho belo...
    os textos são todos a sua cara kkkkkkkk

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