domingo, 18 de março de 2012

observação poética

Observação poética

Joacir Rocha

Já me banhei nesse córrego

Que anda sorridente lambendo

Essas pedras enferrujadas

Já descansei na sombra dessas árvores

Que abrigam esses pássaros tagarelas

A voz dessa cigarra que toca

Essa canção afinada repousava

Numa parte muita rasa do meu cérebro.

O gordo sapo que desceu o barranco,

Cambalhoteiro, e enfiou-se na brecha do lajedo

Tem as mesmas feições do sapo

que eu jogava sal só para ver o leite que jorrava

das suas costas rugosas.

Houve um tempo em que eu só via

As árvores que serviam para fazer pião

Os pássaros não eram pássaros

Se não servissem para pagar pena

Na minha enjambrada gaiola de pacotê

O apito da cigarra servia de relógio

Quando eu nem via o tempo passar

O sapo, despejo para as minhas perversões.

A minha forma de enxergar o mundo mudou

Agora que fechei os olhos da face

e passei a usar os do coração

A pureza da natureza desmanchou

As geleiras do meu peito

E o líquido que jorra quer banhar o seu corpo

Que já se encontra ornado

Com as flores dos sabiás viçosos

Faço uma viagem por esse túnel verde

e não quero mais voltar

Quero habitar com os pássaros

que deram gargalhadas

quando nos viram chegar;

com as árvores que formaram o palco;

com a cigarra pianista da festa de improviso

feita para dois convidados

que chegaram sem avisar

com o sapo fora de forma

que fez o papel de segurança.

(nenhum besouro penetra osculou o seu rosto)

A água desse córrego desceu mansamente

E lavou as impurezas da minha alma

Você se cansou da minha calma?

Receba um afago poético desse menino

Que já maduro descobriu o prazer de enxergar.

10/03/2012

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