Observação poética
Joacir Rocha
Já me banhei nesse córrego
Que anda sorridente lambendo
Essas pedras enferrujadas
Já descansei na sombra dessas árvores
Que abrigam esses pássaros tagarelas
A voz dessa cigarra que toca
Essa canção afinada repousava
Numa parte muita rasa do meu cérebro.
O gordo sapo que desceu o barranco,
Cambalhoteiro, e enfiou-se na brecha do lajedo
Tem as mesmas feições do sapo
que eu jogava sal só para ver o leite que jorrava
das suas costas rugosas.
Houve um tempo em que eu só via
As árvores que serviam para fazer pião
Os pássaros não eram pássaros
Se não servissem para pagar pena
Na minha enjambrada gaiola de pacotê
O apito da cigarra servia de relógio
Quando eu nem via o tempo passar
O sapo, despejo para as minhas perversões.
A minha forma de enxergar o mundo mudou
Agora que fechei os olhos da face
e passei a usar os do coração
A pureza da natureza desmanchou
As geleiras do meu peito
E o líquido que jorra quer banhar o seu corpo
Que já se encontra ornado
Com as flores dos sabiás viçosos
Faço uma viagem por esse túnel verde
e não quero mais voltar
Quero habitar com os pássaros
que deram gargalhadas
quando nos viram chegar;
com as árvores que formaram o palco;
com a cigarra pianista da festa de improviso
feita para dois convidados
que chegaram sem avisar
com o sapo fora de forma
que fez o papel de segurança.
(nenhum besouro penetra osculou o seu rosto)
A água desse córrego desceu mansamente
E lavou as impurezas da minha alma
Você se cansou da minha calma?
Receba um afago poético desse menino
Que já maduro descobriu o prazer de enxergar.
10/03/2012
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