domingo, 16 de maio de 2010

Com comecei a ler

Como eu comecei a ler

Lembro-me de que eu entrei na escola com quase oito anos. Antes já sentia vontade de freqüentar tal ambiente, mas, segundo a opinião dos meus superiores, a hora ainda não era chegada. Enquanto essa ocasião não chegava, eu fica idealizando como seria esse lugar que eu tanto ansiava e ser em breve um dos seus freqüentadores assíduos. À tarde, saindo os meus irmãos mais velhos com os livros debaixo do braço, eu sentia inveja deles. Muitas vezes me flagraram chorando por não puder acompanhá-los. Queria aprender a ler.
A ansiedade tinha lá seus motivos. Na zona rural, quando televisão era algo desconhecido, as pessoas se reuniam rotineiramente lá na latada do meu pai, e, enquanto o sono não chegava, histórias eram contadas e folhetos de cordéis eram lidos. Os contadores eram muitos; os leitores, poucos. A minha mãe ensinava aos principiantes a entonação da leitura e ajudava na pronúncia de algumas palavras mais complicadas. Foi nesse cenário simples, livre de qualquer parafernália pedagógica, que comecei a me familiarizar com as palavras. A prendi a ler com a naturalidade de quem aprende a andar. Não almejava ser alguém na vida. Tudo que eu queria era ser locutor daqueles momentos prazerosos o que não levou muito tempo.
O treino constante me levou a quase perfeição. Enquanto não chagava a hora dos adultos, eu lia a tarde inteira para o público que tinha quase a minha idade. Havia aqueles que adormeciam me ouvindo. Quando não tinha platéia, eu lia para mim mesmo embaixo de árvores, fazendo companhia aos pássaros. Com o passar do tempo fui percebendo os efeitos positivos desse hábito contraído. Melhorei a dicção, ampliei meu vocabulário, as rimas e os versos passaram a conviver intimamente comigo. Por isso bendigo muito o cordel nas minhas falas.
No cordel existe uma concentração de muita coisa boa. O lúdico, o satírico, o lírico, a denúncia social, a geografia, a história, a ciência de um modo geral, enfim tudo que precisamos para formar o nosso acervo cultural e lingüístico. Sem contar a expressividade demonstrada pelas pessoas que cultivam esse gênero que é de causar inveja em quem passou pelo artificialismo dos bancos universitários. A estilística não poderia encontrar material mais rico em metáforas, personificação, jogo sonoro para estudar do que esse produzido pelos verdadeiros poetas que muita gente, por ignorância, despreza.
Aos homens contadores de histórias, aos poetas populares eu devo muito da minha modesta formação. Não precisei ler nenhum livro das azedas teorias para aprender a gostar de ler. Já aprendi gostando. Aprendi a ler sentindo o gosto doce das palavras, que,aliás, era o meu que estava materializado. Hoje vendo escola numa luta em vão para fazer os alunos gostarem de ler, sinto vontade de dizer: já que as modernas teorias estão sem efeito, voltemos ao tempo das latadas. Alguns dos meus mestres anônimos continuam vivos e não cobram caro para nos ensinar.
Francisco Joacir Rocha, 23/02/2010

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